Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

O Elogio da Crítica

Um Sarau de Arte, para lembrar. O que aconteceu no cinema Imperador, na noite de 14 de Outubro de 2000, em “100 anos de Música Portuguesa”, foi algo que nos surpreendeu pela beleza contagiante, pela sinceridade poética e musical, pela mestria, pelo encanto que levou a centenas de pessoas ali presentes. O povo de S .João Madeira, que ali ocorreu, bem depressa se apercebeu da grandiosidade do momento cultural, e, sentado, batendo palmas aos sons das canções, sem cessar, ao ouvir melodias consagradas dos anos 10, 20, 30, 40, 60, 90 ..., não regateou palmas, não deixou de aclamar os poucos artistas que, no palco, nos proporcionaram um excelente momento musical, recheado de canções que criaram imortalidade ao serem cantadas, ontem e hoje, pela voz do Povo anónimo. E foi um carrocel mágico de músicas e canções belas, tão impregnadas de sonho, beleza, encantamento, uma aguarela musical, na doce evocação dos nossos antigos tempos, na nossa adolescência, mocidade e vida. E tudo isto acontece em ritmos sucessivos de Beleza hipnotizante / contagiante, que tanto nos cativou como subjugou. E o Povo, a grei trabalhadora, ali acorreu e soube, como nunca vimos, através de palmas e das aclamações verbais, ovacionar um grupo restrito de anónimos artistas sanjoanenses : Eva Danin, Benjamim Maia, Álvaro Lopes, Pedro Amorim, Alcides Paiva, Sandra Brandão, André Maia, Paulo Reis, Carlos Ramalho, Talino, Meco e outros, que souberam, através da arte e dos sons mágicos da música e das canções, tão belamente cantadas, entusiasmar, até ao rubro, toda uma plateia de anónimos trabalhadores sanjoanenses. Na verdade, não nos lembramos de um momento de arte no qual o Povo tivesse tanta intenção através das palavras, das palmas e do canto, não rogado, ao cantar com os artistas do palco, as lindas canções que encheram de encanto as nossas almas, nas décadas de 10,30,50, etc !. Uma digressão sentimental, começada com a imortal Amália, no fado "Barco Negro" e, após isto, veio a panaceia de dezenas de canções populares da música ligeira portuguesa, das canções populares que criaram eternidade, no Teatro, Revista, Cinema, Festivais da Canção, Folclore, Fado, Pop Rock e Top's inesquecíveis. Não é só musica erudita que deve ser trazida a S. João Madeira. O povo trabalhador, gente anónima, talvez sem ou apenas com a 4ª classe, merece-nos todo o carinho e respeito e julgamos que ainda não criou receptividade cultural para a música clássica. Ele vibra, sua alma sonha e eleva-se ao ouvir canções antigas, ao som magoado ou alegre, ao som mágico da música das canções que lhe falam à alma, ao sentimento, à dureza da sua condição de homens que trabalham e criaram riqueza, que concorreram para engrandecer esta pobre cidade do Trabalho, mas também da Cultura. Foi para eles que um pequeno grupo de artistas soube criar momentos mágicos, carregados de emoções, de sonhos, de fantasias, ilusões ou encantamentos. Porque no sarau, que durou apenas 2 horas, passou toda uma panorâmica de canções e músicas, cantadas e tocadas pelo povo, ao longo de 100 anos, canções que fizeram vibrar os corações, tão cheios de sensibilidade, das gentes humildes e trabalhadoras desta cidade. Espectáculos desta natureza deveriam repetir-se umas 4 vezes por ano. Nos fados e canções, o povo sentiu vibrar a sua alma, sua alegria ou entusiasmo, ao identificar-se com o teor das letras e dos acordes divinos de Arte de Santa Cecília. E esta cidade tem bons músicos e cantores. E foi na participação espontânea do povo anónimo, ao cantar e aplaudir, que nós vimos vibrar a alma das gentes que labutam ou participaram, através do seu suor, trabalho e sacrifícios, a ajudar a criar grandeza e riqueza material a esta Cidade, ontem aldeia ... Ouvimos lamentar que o Pelouro da Cultura da Câmara não divulgou à altura precisa, na Imprensa, Rádio ou cartazes – quase ilegíveis -, pois se o tivesse feito o Cinema Imperador lotava na plateia ou balcão. E foi uma pena. Por isso, gostaríamos que o espectáculo fosse repetido, sem os inconvenientes acima. E que no programa sejam incluídos 6 fados da diva Amália ( a nossa canção nacional conhecida mundo fora). Neles está contido o drama de viver, o destino, a saudade, o amor, o encanto / desencanto, a dor, o fatalismo, o desconcerto da vida, nos seus "erros, má fortuna e amor ardente", como bem escreveu, um dia o torturado Camões. O fado é por excelência a alma do povo lusitano / ibero / celta / árabe / romano ou fenício, a miscigenação destes povos que neste jardim à beira mar trabalharam, viveram e amaram ou sofreram, e nas caravelas, com o fado na alma e na garganta, foram à descoberta de novos mundos... Felicitamos todos quantos participaram neste belo espectáculo e pedimos desculpa de eventuais omissões.

 

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Eurico Alves - em Momentos de Arte

publicado por companhiadamusica às 16:29
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